«Salmo ‘MISERERE’… do ‘PECADOR-PENITENTE’» [Sl 51 (50)]         

Este salmo é, desde sempre, “o Salmo 50”, ainda que ultimamente lhe tenham dado o número 51(!?). Na realidade, este salmo será, para sempre, o Salmo «MISERERE» (pela primeira palavra da tradução Bíblica «latina», a Vulgata). E a autoria deste Salmo é atribuída ao jovem Rei David. (Que está no ‘título’ do salmo: Quando o profeta Natan foi ao seu encontro, após o adultério com Betsabé -v.2-).

            E, precisamente, esta primeira palavra (compaixão, misericórdia =“miserere”) dirigida a Deus por um ser humano que se sente pecador (e ainda após um grave e triplo pecado) leva-nos a pensar que este homem, ao sentir-se agora um grande pecante, passa a ser ‘penitente’, isto é, disposto a fazer todo o tipo de penitências até sentir que o seu grande pecado ficou ‘apagado’. Daqui, o facto considerar este Salmo como o principal dos salmos ‘penitenciais’ (entre uma meia dúzia de outros salmos considerados igualmente de sentido penitencial).

E, neste caso, utilizamos a expressão ‘triplo pecado’ para referir-nos: não só, como é sabido, ao pecado do adultério de David com a “mulher de Urias”, mas sobretudo, y ainda mais grave, ao pecado de homicídio, ao ordenar que se provocasse a morte do próprio Urias (!?); mas há também ‘um terceiro’ pecado de furto, pela facto de lhe ter roubado a que era sua esposa. E tudo isto, enquanto o tal soldado Urias estava a lutar numa batalha para defender precisamente o seu Rei). Se bem pensamos, ficamos a questionar se é realmente possível cometer um pecado maior (!)

 Fácil é, perante isto, compreender a atitude de David, profundamente humilde, contrita e arrependida! Atitude que aparece já desde a primeira exclamação desta Oração Sálmica: “Misericórdia (‘miserere’), ó Deus, pela tua bondade!; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado!”(-v.3-).

            Aparece claramente o seu profundo sentimento de ‘grande pecador’, e ao mesmo tempo, a sua preocupação por “apagar o seu imenso, enorme pecado”. E o faz, utilizando expressões deste género: “…exultem estes ossos que trituraste”(-v.10-); “ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue” (-v.16-); “não te agrada qualquer sacrifício e holocausto que eu te ofereça” (-v.18-); “O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido” (-v.19-).

            Aliás – e ainda em pleno Antigo Testamento (AT) – chega-se a uma conclusão ousada e pioneira, até “profética”: ‘O sacrifício que agrada a Deus é o espírito contrito e um coração arrependido… e não quaisquer outros holocaustos e sacrifícios’, de animais, até mesmo exagerados em número e/ou tamanho (!).

E por falar no AT. Avancemos agora, por uns momentos, até ao NT, para confirmar e atualizar a tal ‘profecia’ que acabamos de mencionar, surgida neste Salmo.

Iremos reparar nalgumas das inúmeras vezes nas quais Jesus de Nazaré (já no NT) ‘reivindica’ para o Reino do Seu Pai – ABBA (Mãe-Pai) – estas novidades (que já adiantava o Salmo) para tentar mudar e transformar radicalmente o culto anterior, tornando-o agradável ao Pai Deus!  Por exemplo (e agora já são ‘Palavras de Jesus’): “«…Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade;… Deus é espírito, por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade»”(Jo 4,23-24).Ou então: “«Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores»”(Mt 9,13). É precisamente neste “texto” último (de Mt) onde Jesus cita o profeta Oseias, para apoiar as suas palavras numa outra passagem do AT: “Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos”(Os 6,6).

Bom, mas prossigamos com o nosso Salmo. É claro que todos os versículos deste Salmo são admiráveis e imprescindíveis, mas comentaremos apenas mais dois ou três.

Temos o versículo sete, que é como que uma ‘espécie de desculpa’ da parte do orante pecador: “Eis que eu nasci na culpa e a minha mãe concebeu-me em pecado” (-v.7-). Além de apresentar a Deus uma realidade que desculpe ou diminua a sua culpabilidade, parece também sugerir uma outra interpretação dupla. O primeiro significado (o único em sentido cristão) é o de referir-se a «o pecado original com o qual tod@s nascemos». De acordo. Mas é evidente que esse é o sentido último e definitivo para a Teologia Bíblica! Porém, se temos em conta a realidade histórica, verifica-se que aquilo que a gente, naquele tempo, entendia com a expressão “eu nasci na culpa e minha mãe concebeu-me em pecado”, referia-se unicamente a esses factos em si mesmos. Quer dizer, historicamente, sabe-se que, naquele tempo, o ato da união sexual para a reprodução (bem como o próprio ato do parto) eram considerados ‘pecaminosos’ (!?). Por tanto, este foi o sentido original do versículo do Salmo. Todavia, não deixa de ter igualmente o «sentido teológico-profético» para a doutrina do «pecado original».

Enfim. Destaquemos, para concluir – de entre os restantes versículos do Salmo – estes dois, pelo seu sentido ‘singular’ e ‘profundo’, e ao mesmo tempo ‘aliciante’:

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro;

renova e dá firmeza ao meu espírito” (-v.12-). [ ‘Petição ousada e radical!’ ]

“Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos

e os pecadores hão de voltar para ti” (-v.15). [ ‘Propósito de emenda apostólico!’ ]

                                                                                     (30-04-2026)                                                                     

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