A Bíblia (do AT) em geral, foi escrita num contexto em que a ‘violência’ estava presente (pelos povos, reinos, impérios, em volta do “povo de Deus”). E o Livro dos Salmos está entre os mais característicos neste sentido. Fique assente esta constatação.
Qualquer pessoa que tenha aberto, folheado ou lido com alguma atenção o Livro dos Salmos da Bíblia – mas também outros Textos bíblicos – pode ficar admirado, espantado, ou até escandalizado, ao descobrir ‘numerosas’ passagens que refletem expressões de violência, de ódio, de vingança… Especialmente se já utilizou esse Livro dos Salmos como base para a sua oração (o que é conhecido como «o Livro do Saltério»)…
É verdade que se escrevem, e se ouvem, acerca disto, diversas opiniões para tentar justificar ou esclarecer esta realidade ‘chocante’ presente na Palavra de Deus (!?)…
Aceitemos, antes de mais, esta verificação: Quer os Salmos quer igualmente outros relatos bíblicos (ex. o Livro de Josué) hão de ser o reflexo natural do que acontece no íntimo do coração humano… É, portanto, ‘normal’ que “os salmistas”elevem e apresentem a Deus (num ambiente de Oração) estes sentimentos… quer do bem quer do mal; do que é bom e do que for mau.
É preciso ter em conta uma questão importante e essencial: o bem e o mal, o bom e o mau, não existiriam no mundo se a sua realidade não surgisse no próprio coração humano. E não se pense que o género humano pode ser dividido em ‘dois mundos’: o dos maus e o dos bons… Aliás, o mal e o bem, como sabemos, pode encontrar-se e conviver em todos os corações… No coração de “um justo” pode haver – antes ou depois! – algum mal. Do mesmo modo que, no coração de “um pecador”, ‘esconde-se’ algum bem, mais ou menos disfarçado… «Deus é que sabe!», diz o povo. E precisamente por isso, ninguém pode negar qualquer uma dessas duas realidades… ‘Graças a Deus!’, diríamos nós.
Mas isso porquê? – Pois cá está a chave da liberdade humana (que nós costumamos apelidar de “sagrada liberdade”-!-). É que a liberdade foi o melhor atributo, a melhor criação de Deus, o melhor ‘presente’, em todo o ser humano… Então, dissemos nós: Se quisermos que desapareçao mal, todo o mal, no mundo, bastaria tirarmos a liberdade ao homem!… Mas então, ‘ipso facto’, desapareceria igualmente o bem (!?)… – E o que ficava!? – Nada!
Lembremos, portanto, o que já ficou afirmado anteriormente por outras palavras: Se os “textos bíblicos” não refletissem o que vai no coração humano (mormente em “textos” dedicados à Oração) qual seria então o sentido que poderiam ter estes textos?…
Bem. Mas apresentamos, a seguir – sem comentários – alguns versos ou ‘versículos’ de uma meia dúzia de Salmos (entre muitos outros possíveis!) para termos uma ideia dessa “linguagem” que o ser humano é capaz de utilizar quando se encontra nessas ‘situações-limite’ de: medo, temor, pânico, pavor…; ou após ter sido gravemente ofendido, humilhado:
“Venha sobre eles uma ruína imprevista! Caiam no fosso que me abriram!” (Sl35,8). /+/ “Que a morte os surpreenda e desçam vivos ao mundo dos mortos, porque a malvadez habita neles…” (Sl55,16). /+/“Ó Deus, quebra-lhes os dentes! Arranca, Senhor, os queixais a esses leões!” (Sl58,7). /+/ “Deixa-os acumular falta sobre falta, e não permitas que tenham acesso ao teu perdão” (Sl69,28). /+/ “Retribui aos nossos vizinhos sete vezes mais as ofensas com que eles te ultrajaram, Senhor” (Sl79,6,12). /+/“Ó meu Deus, dispersa-os como as folhas em redemoinho… como o fogo que devora a floresta, como a chama que incendeia os montes” (Sl83,14).[ É para pensar que, naquelas Idades tão pretéritas, já existiam os terríveis “incêndios nos montes” e “fogos nas florestas”! ]./+/ “Que os seus filhos fiquem órfãos e a sua mulher fique viúva!… Que ninguém tenha compaixão dele, nem dos seus filhos órfãos… Que seja exterminada a sua descendência e seja apagado o seu nome numa geração… E que jamais se apague o pecado de sua mãe”(*)(Sl109,9-14). /+/ “Ó Cidade da Babilónia devastadora, feliz de quem te retribuir com o mesmo mal que nos fizeste! Feliz de quem agarrar nas tuas crianças e as esmagar contra as rochas!” (Sl137,8-9). /+/ “Até o meu amigo… se levantou contra mim…(v.10). Os meus inimigos falam mal de mim e dizem: «Quando morrerá e será esquecido o seu nome!»… Os que me odeiam murmuram contra mim: «Uma doença maligna o atingiu, donde está deitado não voltará a erguer-se»”(Sl41,10.6.9). …
Qualquer um de nós – perante isto – poderá pensar: quanta violência e injustiça deverão ter sofrido os autores destes Salmos, para chegar a exprimir-se desses modos!?
Porém, não é preciso irmos tão longe. Bastaria darmos a palavra às vítimas (aos milhares…) das guerras – provocadas pela liberdade humana! – nestes nossos dias: na Ucrânia, ou em Israel, Gaza, Líbano, Irão (precisamente alguns destes cenários também coincidentes com os dos Salmos). Poderíamos imaginar as expressões que escutaríamos. Aliás, basta-nos escutar os meios de comunicação… E ficaríamos saturados das mesmas ou parecidas expressões…
Então, parece-nos que as dúvidas e ‘reticências’ acerca deste assunto (em Salmos e outros), um tema deveras “espinhoso”, poderão ter ficado resolvidas e/ou esclarecidas (?)…
(*) – Mas qual é o significado desse «pecado das mães»? – Sabe-se que, entre os judeus, existia a crença de que o ato sexual para a procriação (que incluía ‘o parto’) era uma realidade “pecaminosa” para a mulher (!?) (ver tb: Sl 51,7)… E nós perguntamos: porquê é que só se aplicava às mães e não aos pais? (-Mais um sinal de “machismo”!?)… Há que reconhecer, aliás, que, dependendo dos autores, podem existir outras «interpretações» ou ‘sentidos’ desta realidade(!); embora, afinal, «elas» ‘se complementam’(!?)…
31 Julho, 2026
«SALMOS… DEVERAS ‘ESPINHOSOS’(?)»
Luis López A Palavra REFLETIDA
«SALMOS… DEVERAS ‘ESPINHOSOS’(?)»
A Bíblia (do AT) em geral, foi escrita num contexto em que a ‘violência’ estava presente (pelos povos, reinos, impérios, em volta do “povo de Deus”). E o Livro dos Salmos está entre os mais característicos neste sentido. Fique assente esta constatação.
Qualquer pessoa que tenha aberto, folheado ou lido com alguma atenção o Livro dos Salmos da Bíblia – mas também outros Textos bíblicos – pode ficar admirado, espantado, ou até escandalizado, ao descobrir ‘numerosas’ passagens que refletem expressões de violência, de ódio, de vingança… Especialmente se já utilizou esse Livro dos Salmos como base para a sua oração (o que é conhecido como «o Livro do Saltério»)…
É verdade que se escrevem, e se ouvem, acerca disto, diversas opiniões para tentar justificar ou esclarecer esta realidade ‘chocante’ presente na Palavra de Deus (!?)…
Aceitemos, antes de mais, esta verificação: Quer os Salmos quer igualmente outros relatos bíblicos (ex. o Livro de Josué) hão de ser o reflexo natural do que acontece no íntimo do coração humano… É, portanto, ‘normal’ que “os salmistas” elevem e apresentem a Deus (num ambiente de Oração) estes sentimentos… quer do bem quer do mal; do que é bom e do que for mau.
É preciso ter em conta uma questão importante e essencial: o bem e o mal, o bom e o mau, não existiriam no mundo se a sua realidade não surgisse no próprio coração humano. E não se pense que o género humano pode ser dividido em ‘dois mundos’: o dos maus e o dos bons… Aliás, o mal e o bem, como sabemos, pode encontrar-se e conviver em todos os corações… No coração de “um justo” pode haver – antes ou depois! – algum mal. Do mesmo modo que, no coração de “um pecador”, ‘esconde-se’ algum bem, mais ou menos disfarçado… «Deus é que sabe!», diz o povo. E precisamente por isso, ninguém pode negar qualquer uma dessas duas realidades… ‘Graças a Deus!’, diríamos nós.
Mas isso porquê? – Pois cá está a chave da liberdade humana (que nós costumamos apelidar de “sagrada liberdade”-!-). É que a liberdade foi o melhor atributo, a melhor criação de Deus, o melhor ‘presente’, em todo o ser humano… Então, dissemos nós: Se quisermos que desapareça o mal, todo o mal, no mundo, bastaria tirarmos a liberdade ao homem!… Mas então, ‘ipso facto’, desapareceria igualmente o bem (!?)… – E o que ficava!? – Nada!
Lembremos, portanto, o que já ficou afirmado anteriormente por outras palavras: Se os “textos bíblicos” não refletissem o que vai no coração humano (mormente em “textos” dedicados à Oração) qual seria então o sentido que poderiam ter estes textos?…
Bem. Mas apresentamos, a seguir – sem comentários – alguns versos ou ‘versículos’ de uma meia dúzia de Salmos (entre muitos outros possíveis!) para termos uma ideia dessa “linguagem” que o ser humano é capaz de utilizar quando se encontra nessas ‘situações-limite’ de: medo, temor, pânico, pavor…; ou após ter sido gravemente ofendido, humilhado:
“Venha sobre eles uma ruína imprevista! Caiam no fosso que me abriram!” (Sl 35,8). /+/ “Que a morte os surpreenda e desçam vivos ao mundo dos mortos, porque a malvadez habita neles…” (Sl 55,16). /+/ “Ó Deus, quebra-lhes os dentes! Arranca, Senhor, os queixais a esses leões!” (Sl 58,7). /+/ “Deixa-os acumular falta sobre falta, e não permitas que tenham acesso ao teu perdão” (Sl 69,28). /+/ “Retribui aos nossos vizinhos sete vezes mais as ofensas com que eles te ultrajaram, Senhor” (Sl 79,6,12). /+/ “Ó meu Deus, dispersa-os como as folhas em redemoinho… como o fogo que devora a floresta, como a chama que incendeia os montes” (Sl 83,14).[ É para pensar que, naquelas Idades tão pretéritas, já existiam os terríveis “incêndios nos montes” e “fogos nas florestas”! ]. /+/ “Que os seus filhos fiquem órfãos e a sua mulher fique viúva!… Que ninguém tenha compaixão dele, nem dos seus filhos órfãos… Que seja exterminada a sua descendência e seja apagado o seu nome numa geração… E que jamais se apague o pecado de sua mãe”(*)(Sl 109,9-14). /+/ “Ó Cidade da Babilónia devastadora, feliz de quem te retribuir com o mesmo mal que nos fizeste! Feliz de quem agarrar nas tuas crianças e as esmagar contra as rochas!” (Sl 137,8-9). /+/ “Até o meu amigo… se levantou contra mim…(v.10). Os meus inimigos falam mal de mim e dizem: «Quando morrerá e será esquecido o seu nome!»… Os que me odeiam murmuram contra mim: «Uma doença maligna o atingiu, donde está deitado não voltará a erguer-se»”(Sl 41,10.6.9). …
Qualquer um de nós – perante isto – poderá pensar: quanta violência e injustiça deverão ter sofrido os autores destes Salmos, para chegar a exprimir-se desses modos!?
Porém, não é preciso irmos tão longe. Bastaria darmos a palavra às vítimas (aos milhares…) das guerras – provocadas pela liberdade humana! – nestes nossos dias: na Ucrânia, ou em Israel, Gaza, Líbano, Irão (precisamente alguns destes cenários também coincidentes com os dos Salmos). Poderíamos imaginar as expressões que escutaríamos. Aliás, basta-nos escutar os meios de comunicação… E ficaríamos saturados das mesmas ou parecidas expressões…
Então, parece-nos que as dúvidas e ‘reticências’ acerca deste assunto (em Salmos e outros), um tema deveras “espinhoso”, poderão ter ficado resolvidas e/ou esclarecidas (?)…
(*) – Mas qual é o significado desse «pecado das mães»? – Sabe-se que, entre os judeus, existia a crença de que o ato sexual para a procriação (que incluía ‘o parto’) era uma realidade “pecaminosa” para a mulher (!?) (ver tb: Sl 51,7)… E nós perguntamos: porquê é que só se aplicava às mães e não aos pais? (-Mais um sinal de “machismo”!?)… Há que reconhecer, aliás, que, dependendo dos autores, podem existir outras «interpretações» ou ‘sentidos’ desta realidade(!); embora, afinal, «elas» ‘se complementam’(!?)…
(31-07-2026)
// Para REFLEXÕES afins aos Tempos Litúrgicos, e outras, ABRIR o ‘BLOG’: https://palavradeamorpalavra.sallep.net