
«A ‘PAIXÃO DO JUSTO’» [Sl 22 (21)] …
E «O ‘CÂNTICO DO SERVO’» [Is 53] …
Apresentamos, desta vez (e já dentro do Tempo litúrgico da “Semana Santa-2026”) um paralelismo “intercalado” ou interposto, entre:
(«) [ Salmo (22 / 21), que é a «Paixão do justo» ], e
(») [ Profecia de Isaías (c. 53), que é o «4º Cântico do Servo» ].
Mas (na história da Bíblia) qual é que foi ‘antes’, e qual foi ‘depois’? Historicamente é praticamente impossível determiná-lo… Porém, a lógica humana – e a espiritual – supõem e aceitam que fosse a Profecia primeiro, e o Salmo (a Oração) depois. Mesmo assim, na realidade, e para a Teologia Bíblica, não faz diferença (!) qual fosse primeiro e qual depois…
Contudo, não podemos esquecer que foi o próprio Cristo (o Messias Salvador, Deus e homem) quem ‘fez sua’ essa ‘exclamação’, quando estava já “pregado na Cruz”, e prestes a exalar o último suspiro. (Mt 27,46 ou Mc 15,34) É evidente que Jesus conhecia muito bem este Salmo 22(21), que teria rezado muitas vezes durante a sua vida… Também devia conhecer, por ter lido e meditado (tantas vezes!) o c. 53 do Profeta Isaías na sinagoga da sua aldeia de Nazaré…
Então, começa o salmista, o orante, com esse “grito desgarrado(?)” de quem – diante de Deus – ‘sente-se como que abandonado’ no meio de terríveis dores e sofrimentos… E, logo a seguir, segue, sucessivamente, o tal “paralelismo” intercalado:
(«) Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste (Mc 15,34)
rejeitando o meu lamento, o meu grito de socorro?…
…Em ti confiaram os nossos pais
e Tu os libertaste; a ti clamaram e foram salvos…
(») Ao servo do Senhor… vimo-lo sem figura nem beleza,
sem aspeto atraente… como alguém cheio de dores,
habituado ao sofrimento… diante do qual se tapa o rosto…
(«) Eu sou um verme e não um homem,
o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe…
(») Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças,
carregou as nossas dores.
Nós o reputávamos como um leproso,
ferido por Deus e humilhado.
Mas foi ferido por causa dos nossos crimes,
esmagado por causa das nossas iniquidades.
O castigo que nos salva caiu sobre ele,
fomos curados pelas suas chagas…
(«) … Na verdade, Tu me tiraste do seio materno,
puseste-me em segurança ao peito de minha mãe.
Pertenço-te desde o ventre materno;
desde o seio de minha mãe, Tu és o meu Deus.[Sl 22(21),10-11] (*)
(») Todos nós andávamos desgarrados
como ovelhas perdidas,
cada um seguindo o seu caminho.
Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes.
Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca,
como um cordeiro que é levado ao matadouro…
(«) …todos os meus ossos se desconjuntaram;
o meu coração tornou-se como cera
e derreteu-se dentro do meu peito.
A minha garganta secou-se como barro cozido…
reduziste-me ao pó da sepultura…
trespassaram as minhas mãos e os meus pés:
posso contar todos os meus ossos…
Repartem entre si as minhas vestes
e sorteiam a minha túnica.
(») Foi suprimido da terra dos vivos…
por causa dos pecados do meu povo ele foi ferido.
Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios,
e uma tumba entre os malfeitores…
embora não tenha cometido crime algum,
nem praticado qualquer fraude.
Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento,
para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação…
(«) O Senhor não desprezou nem desdenhou
a aflição do pobre, nem desviou dele a sua face;
mas ouviu-o, quando lhe pediu socorro…
(») O servo foi contado entre os pecadores,
tomando sobre si os pecados de muitos…
ele, o justo, justificará a muitos,
porque carregou com o crime deles…
ele próprio entregou a sua vida à morte
e sofreu pelos culpados…
(«) Mas Tu, Senhor, não te afastes de mim!
És o meu auxílio: vem socorrer-me depressa!…
Então anunciarei o teu nome aos meus irmãos
e te louvarei no meio da assembleia…
(») Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias,
e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele…
ser-lhe-á dada uma multidão como herança,
há de receber muita gente como despojos,
Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz.
O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve.
(«) Hão de lembrar-se do Senhor
e voltar-se para Ele todos os confins da terra;
hão de prostrar-se diante dele
todos os povos e nações…
porque ao Senhor pertence a realeza.
Ele domina sobre todas as nações…
Uma nova geração o servirá
e narrará aos vindouros as maravilhas do Senhor…
Então, verificou-se que – após tantos “acontecimentos aflitivos” e “sofrimentos terríveis” – a «história» conclui em Vitória e em Glória; quer na ‘Profecia’ quer no ‘Salmo’. Como não podia ser doutro modo!
E… já agora: Talvez não repararam, nessa parte do Salmo onde se alude à “mãe do justo”?… E então – no caso do «Justo, Messias Salvador, Jesus Cristo», a quem toda a «história»(!) ‘prefigura’, quem é que representam estas expressões: “seio materno… ao peito de minha mãe… o ventre materno… desde o seio de minha mãe”? [ Ver: (*) ]
Está bem claro que é uma referência profética, do Salmo, à Virgem Maria de Nazaré, a Mãe de Jesus Cristo e, portanto, nossa Mãe! Tenho dito.
(30-03-2026)
// Para REFLEXÕES afins aos Tempos Litúrgicos, e outras, ABRIR o ‘BLOG’:








![«Salmo ‘MISERERE’… do ‘PECADOR-PENITENTE’» [Sl 51 (50)] «Salmo ‘MISERERE’… do ‘PECADOR-PENITENTE’» [Sl 51 (50)]](http://palavradeamorpalavra.sallep.net/wp-content/uploads/2026/04/21.a.Salmo-‘MISERERE…-ENTE.jpg)
![«A ‘PAIXÃO DO JUSTO’» [Sl 22 (21)] … «A ‘PAIXÃO DO JUSTO’» [Sl 22 (21)] …](https://palavradeamorpalavra.sallep.net/wp-content/uploads/2026/03/20.a.A-‘PAIXAO-DO-JUSTO-Sl-22-21.--1024x717-50x50.jpg)



30 Abril, 2026
«Salmo ‘MISERERE’… do ‘PECADOR-PENITENTE’» [Sl 51 (50)]
Luis López A Palavra REFLETIDA
«Salmo ‘MISERERE’… do ‘PECADOR-PENITENTE’» [Sl 51 (50)]
Este salmo é, desde sempre, “o Salmo 50”, ainda que ultimamente lhe tenham dado o número 51(!?). Na realidade, este salmo será, para sempre, o Salmo «MISERERE» (pela primeira palavra da tradução Bíblica «latina», a Vulgata). E a autoria deste Salmo é atribuída ao jovem Rei David. (Que está no ‘título’ do salmo: Quando o profeta Natan foi ao seu encontro, após o adultério com Betsabé -v.2-).
E, precisamente, esta primeira palavra (compaixão, misericórdia =“miserere”) dirigida a Deus por um ser humano que se sente pecador (e ainda após um grave e triplo pecado) leva-nos a pensar que este homem, ao sentir-se agora um grande pecante, passa a ser ‘penitente’, isto é, disposto a fazer todo o tipo de penitências até sentir que o seu grande pecado ficou ‘apagado’. Daqui, o facto considerar este Salmo como o principal dos salmos ‘penitenciais’ (entre uma meia dúzia de outros salmos considerados igualmente de sentido penitencial).
E, neste caso, utilizamos a expressão ‘triplo pecado’ para referir-nos: não só, como é sabido, ao pecado do adultério de David com a “mulher de Urias”, mas sobretudo, y ainda mais grave, ao pecado de homicídio, ao ordenar que se provocasse a morte do próprio Urias (!?); mas há também ‘um terceiro’ pecado de furto, pela facto de lhe ter roubado a que era sua esposa. E tudo isto, enquanto o tal soldado Urias estava a lutar numa batalha para defender precisamente o seu Rei). Se bem pensamos, ficamos a questionar se é realmente possível cometer um pecado maior (!)…
Fácil é, perante isto, compreender a atitude de David, profundamente humilde, contrita e arrependida! Atitude que aparece já desde a primeira exclamação desta Oração Sálmica: “Misericórdia (‘miserere’), ó Deus, pela tua bondade!; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado!”(-v.3-).
Aparece claramente o seu profundo sentimento de ‘grande pecador’, e ao mesmo tempo, a sua preocupação por “apagar o seu imenso, enorme pecado”. E o faz, utilizando expressões deste género: “…exultem estes ossos que trituraste”(-v.10-); “ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue” (-v.16-); “não te agrada qualquer sacrifício e holocausto que eu te ofereça” (-v.18-); “O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido” (-v.19-).
Aliás – e ainda em pleno Antigo Testamento (AT) – chega-se a uma conclusão ousada e pioneira, até “profética”: ‘O sacrifício que agrada a Deus é o espírito contrito e um coração arrependido… e não quaisquer outros holocaustos e sacrifícios’, de animais, até mesmo exagerados em número e/ou tamanho (!).
E por falar no AT. Avancemos agora, por uns momentos, até ao NT, para confirmar e atualizar a tal ‘profecia’ que acabamos de mencionar, surgida neste Salmo.
Iremos reparar nalgumas das inúmeras vezes nas quais Jesus de Nazaré (já no NT) ‘reivindica’ para o Reino do Seu Pai – ABBA (Mãe-Pai) – estas novidades (que já adiantava o Salmo) para tentar mudar e transformar radicalmente o culto anterior, tornando-o agradável ao Pai Deus! Por exemplo (e agora já são ‘Palavras de Jesus’): “«…Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade;… Deus é espírito, por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade»”(Jo 4,23-24).Ou então: “«Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores»”(Mt 9,13). É precisamente neste “texto” último (de Mt) onde Jesus cita o profeta Oseias, para apoiar as suas palavras numa outra passagem do AT: “Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos”(Os 6,6).
Bom, mas prossigamos com o nosso Salmo. É claro que todos os versículos deste Salmo são admiráveis e imprescindíveis, mas comentaremos apenas mais dois ou três.
Temos o versículo sete, que é como que uma ‘espécie de desculpa’ da parte do orante pecador: “Eis que eu nasci na culpa e a minha mãe concebeu-me em pecado” (-v.7-). Além de apresentar a Deus uma realidade que desculpe ou diminua a sua culpabilidade, parece também sugerir uma outra interpretação dupla. O primeiro significado (o único em sentido cristão) é o de referir-se a «o pecado original com o qual tod@s nascemos». De acordo. Mas é evidente que esse é o sentido último e definitivo para a Teologia Bíblica! Porém, se temos em conta a realidade histórica, verifica-se que aquilo que a gente, naquele tempo, entendia com a expressão “eu nasci na culpa e minha mãe concebeu-me em pecado”, referia-se unicamente a esses factos em si mesmos. Quer dizer, historicamente, sabe-se que, naquele tempo, o ato da união sexual para a reprodução (bem como o próprio ato do parto) eram considerados ‘pecaminosos’ (!?). Por tanto, este foi o sentido original do versículo do Salmo. Todavia, não deixa de ter igualmente o «sentido teológico-profético» para a doutrina do «pecado original».
Enfim. Destaquemos, para concluir – de entre os restantes versículos do Salmo – estes dois, pelo seu sentido ‘singular’ e ‘profundo’, e ao mesmo tempo ‘aliciante’:
– “Cria em mim, ó Deus, um coração puro;
renova e dá firmeza ao meu espírito” (-v.12-). [ ‘Petição ousada e radical!’ ]
– “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos
e os pecadores hão de voltar para ti” (-v.15). [ ‘Propósito de emenda apostólico!’ ]
(30-04-2026)
// Para REFLEXÕES afins aos Tempos Litúrgicos, e outras, ABRIR o ‘BLOG’: http://palavradeamorpalavra.sallep.net