A Palavra REFLETIDA
Reflexão da Palavra de cada Domingo
24 Fevereiro, 2015
NO ALTO DO «MONTE»…
Muita gente sente «vertigens das alturas». Isto parece ter uma explicação natural, pelo facto de, aí, não acharmos aqueles “apoios” que nos dão segurança… Pelo contrário, não é normal sentirmos “vertigens” estando cá em baixo, neste chão que nos dá sensação de firmeza e seguridade. Será que fomos feitos para «aves de curral» em vez de «águias de altos voos»?
Contudo, Deus nosso Pai, parece agir ao invés. Sempre que realiza «acontecimentos salvíficos», manifesta uma espécie de relutância “instintiva” para os lugares “inferiores”… e sente predileção e uma “atração imensa” pelos «altos lugares». E não apenas quando se trata de realidades gloriosas que causam gozo e alegria… mas também naquelas outras que significam sacrifício redentor, libertador, mesmo que doam e magoem. Deveremos nós seguirmos a atitude e conduta do nosso Pai Deus?
Quando o Senhor Javé pediu a Abraão o sacrifício do próprio filho Isaac, indicou-lhe um monte, no lugar de Moriá. “Naqueles dias, Deus quis pôr à prova Abraão e chamou-o: «Abraão!». Ele respondeu: «Aqui estou!». Deus disse: «Toma o teu filho, o teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar»…” (Gn 22 / 1ª L.). E é bom termos em atenção que este “episódio” do AT não é mais do que uma “figura” ou imagem simbólica – um «sentido pré-figurado» – daquele verdadeiro acontecimento que teria a sua realização, no futuro, num outro monte: o Sacrifício de Jesus de Nazaré, crucificado e morto no Monte Calvário. Com a diferença essencial de que, no episódio do filho Isaac, Deus poupou-o e deteve a sua morte; enquanto que no caso do Seu Filho Jesus, não foi assim. É o próprio Paulo que no-lo recorda hoje, na sua carta aos romanos: “Se Deus está por nós, quem estará contra nós? Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas?… Quem condenará os eleitos de Deus? Jesus Cristo, que morreu e, mais ainda, ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por nós?” (Rm 8 / 2ª L.).
E quando se trata de acontecimentos gloriosos, a constante é a mesma. Aí estão os Montes: da Ascensão, das Bem-aventuranças, da Transfiguração… O Evangelho de hoje descreve-nos o episódio deste último monte: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles…” (Mc 9). E ficou bem registado que o lugar afastado era “num alto monte”. Era evidente que, naquele sítio, estava-se tão perto de Deus, tão envolvido pelo encanto da Sua divina presença, que uma das testemunhas, Pedro, não sabe já o que está dizer: “«Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas…” (Mc 9 / 3ª L.). Mal podia imaginar o nosso bom Pedro que, para chegar a este Monte da Transfiguração e ser glorificado, antes será necessário subir até ao cimo de outros montes, principalmente o Monte do Calvário, seguindo em fidelidade, cada um com a sua cruz, o percurso da Paixão e Morte do Mestre, Cristo Jesus. Porque, não o esqueçamos, a Ressurreição aconteceu no mesmo Monte da Cruz (onde estava o sepulcro)!
Está bem claro que existe em nós uma «tendência para as Alturas», e que devemos então descobrir essa força instintiva do nosso interior, que ultrapassa e supera todas as “vertigens”: a certeza de que, nos cumes das montanhas, nos cimos mais elevados, estaremos sempre mais perto de Deus. Será assim?
Fiquemos então com o aviso terminante e decisivo do Pai de Jesus, nesta cena do cimo deste monte, também denominado «monte Tabor»: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O!». Bem entendido que “escutar o Filho Jesus” significa, antes de mais, imitar a sua Vida, após ter escutado a sua Palavra.
Quero caminhar na terra dos vivos,
na tua presença, Senhor, meu Deus.
E para estar sempre mais perto de Ti,
desde a minha pequenez e humildade
– pois sinto-me filho da Tua serva –
subirei os montes das Tuas Alianças
onde se realizam os mistérios da Salvação:
os montes dos sacrifícios libertadores,
levando a minha cruz atrás de Jesus,
nas diversas formas de paixão e de morte…
Subirei também os montes luminosos,
onde a Tua Luz e Presença salvíficas
me envolvem e me “transfiguram”…
para escutar a Tua voz, ó Pai, a dizer-me:
«Tu és o meu filho muito amado!».
Nos montes da treva e nos montes da luz,
hei de confiar sempre em Ti, Senhor,
porque sei que a morte dos Teus fiéis
é preciosa e magnífica aos Teus olhos…
E esta vida presente, fruto do Teu Amor,
que se prolongará numa Vida sem fim,
quero que, desde já, seja um hino de louvor
e de eterna gratidão pelo Teu Amor infinito!
[ do Salmo Responsorial / 115 (116) ]
19 Fevereiro, 2015
ANTES E DEPOIS DO… «TEMPO»
19 Fevereiro, 2015
ANTES E DEPOIS DO… «TEMPO»
Desta vez, vamos refletir – e desculpem a expressão “teológica” – acerca do «Cristo meta-histórico», ou seja, tentaremos entender o facto de que, Cristo Jesus, por ser homem e Deus, transcende o Seu “tempo histórico” (antes/depois da Sua vida mortal) e o seu “marco geográfico” (dentro/fora do espaço em que viveu). Será que nós também participamos dessa Sua “transcendência”? A resposta é sim, e isto resulta evidente a partir do Seu Evangelho. Continuaremos a refletir nisto futuramente…
Comecemos, então, pela Palavra de hoje. E tenhamos em atenção que os “números” (quantidades) que aparecem na Bíblia têm um duplo significado: o da sua figura ou quantia representada e o do significado “simbólico”. Por exemplo, o significado do número 40 é de limitação e caducidade e, portanto, trata-se de um «número de prova ou experimentação», uma vez que a sua “duração” nunca será ilimitada. Na história bíblica, através deste número – em dias, em semanas ou em anos – indivíduos e comunidades foram testados e postos à prova… Lemos hoje no Evangelho: “Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens”…(Mc 1). Coisa semelhante aconteceu com vários profetas e personagens bíblicos (Moisés, Elias, Ezequiel, Jonas, David, Saúl…). E, sobretudo, a “prova terrível” do Povo de Deus, no seu conjunto, durante os «40 anos no deserto»… Estes são, portanto, os tempos de prova, que sempre serão limitados. O próprio Jesus vai ficar submetido e sujeito a este significado de caducidade e tentação (como “teste”). Mas, logo de ter sido superada a prova, o mesmo texto evangélico deixa bem claro: “Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»”. (Mc 1/3ª L.). Ao dizer “cumpriu-se o tempo”, quer significar que, uma vez ultrapassado o espaço da prova, ficou para trás o que era tempo limitado, e agora, quer o Reino de Deus, quer o mesmo Jesus como centro e núcleo desse Reino, já são transcendência!
Isto da superação do tempo e do espaço, vemo-lo, igualmente, no relato do livro do Génesis (da 1ª leitura). Passados os “40 dias do dilúvio universal” (tempo limitado de prova e purificação) o “espaço temporal” é ultrapassado, e a “promessa divina” continua, porque é transcendente. Assim, lemos: “Deus disse a Noé e a seus filhos: «Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio, e nunca mais um dilúvio devastará a terra… Este é o sinal da aliança que estabeleço por todas as gerações futuras: farei aparecer o meu arco sobre as nuvens, que será um sinal da aliança entre Mim e a terra… ” (Gn 9 / 1ª L.).
Por sua vez, o autor da 2ª leitura tem igualmente muito claro que a ação Salvadora de Jesus é «meta-histórica», que não fica apenas circunscrita aos seus “com-temporâneos” nem somente a todos os humanos que vierem depois d’Ele até aos fins dos tempos. Senão que – por se tratar de uma Redenção/Salvação transcendente, “meta-histórica” – atinge por igual a todos, isto é, os anteriores, os contemporâneos e os posteriores ao «Jesus histórico». Lemos, assim, neste texto da primeira carta de Pedro: “Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Foi por este Espírito que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte e tinham sido outrora rebeldes, quando, nos dias de Noé…” (1 Pe 3 / 2ª L.). Onde se vê que a Redenção de Cristo (realizada no tempo: “morreu uma só vez pelos pecados”) tem também carácter retroativo (até os que “estavam na prisão… nos dias de Noé…”). A Salvação de Cristo Jesus é Universal, como não podia deixar de o ser!
E agora nós, quê!?… Pois que, ao iniciarmos esta “Quaresma” (40 dias, que reproduzem igualmente aquele significado bíblico), temos à nossa frente um novo período de prova, testagem, tentação… Trata-se, portanto, de um tempo ainda mais propício para – na nossa vida individual e coletiva – testarmos até que ponto somos capazes… E não teremos desculpas se não realizarmos essa autêntica conversão e purificação, uma vez que nós – isso sim! – somos privilegiados a respeito dos nossos irmãos antepassados “do tempo de Noé”, que, desde logo, não tiveram tantas oportunidades como nós, para a penitência… Não esqueçamos aquilo de: “A quem más se deu mais se pedirá”!
Antes de mais, temos bem presente, Senhor,
que as Tuas graças são eternas
e as Tuas misericórdias também;
porque Tu transcendes o tempo e o espaço,
embora, em Jesus e por Jesus,
quiseste entrar neste espaço e tempo,
que é o nosso tempo-espaço humano…
Assim, nós queremos entrar e caminhar
pelos Teus Caminhos, ó Pai nosso…
Por isso, ensina-nos as tuas veredas
e mostra-nos os Teus caminhos,
pois só Tu és o nosso Salvador transcendente…
E no caminho da nossa conversão e penitência,
ajuda-nos e guia-nos na Tua clemência,
por causa da tua bondade, Senhor…
E porque Tu és bom e reto,
e orientas os humildes na justiça,
dá-nos sempre a conhecer a Tua Aliança,
para aceitá-la e assumi-la na nossa vida…
[ do Salmo Responsorial / 24 (25) ]
12 Fevereiro, 2015
«IMPURO! IMPURO!»
«IMPURO! IMPURO!»
Não é que os leprosos daquela época mais antiga, nem os do tempo de Jesus, tivessem de lançar este «grito» só por causa da sua enfermidade repugnante, a lepra, de que eram vítimas. Se fosse apenas por esta razão, até poderia ser compreensível e “desculpável”. Mas de facto, como vamos ver, o objeto e motivo desta imposição acabou por ser muito mais “fundo” e, desde logo, perfeitamente deturpado. O que lemos na primeira leitura, do livro do Levítico – o mais antigo “livro das leis” – é isto: “«…O leproso com a doença declarada usará vestuário andrajoso e o cabelo em desalinho, cobrirá o rosto até ao bigode e gritará: ‘Impuro, impuro!’. Todo o tempo que lhe durar a lepra, deve considerar-se impuro e, sendo impuro, deverá morar à parte, fora do acampamento»” (Lv 13 / 1ª L.). Reparemos que, nestas breves palavras do texto citado, aparece o termo “impuro” até quatro vezes. E sabemos que esta “impureza” foi depois considerada, indo mais além da própria doença física, como uma “impureza legal” ou, mais ainda, até como “impureza moral e religiosa”… Era equivalente a uma espécie de “excomunhão”, pois outro coisa não quer dizer aquela sentença conclusiva: “e deverá morar à parte, fora do acampamento (ou comunidade)”. É verdade que, no tempo de Moisés, a primeira finalidade deste preceito era evitar o contágio entre o povo, ou seja, promover a higiene e saúde; mas também é certo que, com o passar do tempo, a lei foi “degenerando”… até que, em tempo de Jesus, era isso mesmo, uma espécie de “hipocrisia”. De tal modo que, em vários outros lugares do Evangelho escrito por Marcos, Jesus ficará indignado contra os que defendem esta “deturpação da lei”, pois acusavam os seus discípulos de: “comer com mãos impuras, isto é, por lavar”; de “não obedecer a tradição e tomar alimento com as mãos impuras”… Jesus começa por esclarecer: “Não é o que entra no homem que o pode tornar impuro. O que sai do homem, isso é que torna o homem impuro…”. E logo vem a denúncia direta e terrível: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim»”. (Mc 7). Na verdade, para Jesus de Nazaré, as coisas são entendidas e confrontadas inversamente: o que para “eles” é considerado “impuro”, coisas que vêm do exterior (alimentos, mãos por lavar, doenças diversas… tal como a “lepra”) para Jesus “não contam” quanto à impureza legal e demais. Para Jesus, porém, há uma outra “impureza” que suja e mata o homem, aquela que, precisamente, “não conta” para fariseus e companhia ilimitada… É exatamente esta, a impureza (a do “afastamento do coração” ou frieza do espírito) que há de ser combatida para não ter de escutar a Palavra do Senhor: “…Mas o seu coração está longe de mim”.
Quer isto dizer que (no Evangelho de hoje, cujo narrador é também o evangelista Marcos) a conduta de Jesus perante o leproso que vem pedir-Lhe a cura, vai ser totalmente diferente dessas posturas hipócritas ou farisaicas. “Veio ter com Jesus um leproso. Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me». Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo.”… (Mc 1 / 3ª L.). Aqui vemos, na verdade, que Jesus, ao limpar este homem da sua lepra – passando por cima da «lei do afastamento» pois até chega a tocá-lo – demonstra a todos que não existe qualquer outra impureza nesse homem, para além da própria lepra. E, desde logo, aquele homem ficou liberto, pela compaixão e vontade de Jesus, de toda aquela pesada carga legal que suportava.
Vale a pena perguntarmo-nos, como conclusão da nossa reflexão: Qual deverá ser, nesta questão, a nossa atitude perante aquilo que, na presente sociedade que nos envolve, é percebido como ‘puro’ ou ‘impuro’, ‘bom’ ou ‘mau’, ‘lícito’ ou ‘ilícito’… politicamente ‘correto’ ou ‘ incorreto’? Será que vamos seguir a corrente hipócrita dos “modernos fariseus” que continuam a apostar no exterior, na ‘imagem’, na ‘moda’… – “purezas legais” de todos os matizes! – ou será que deveremos apostar no exemplo de Cristo Jesus? S. Paulo, desde que conheceu Jesus, tomou o partido da Verdade e da transparência, e, em coerência, se atreve a exortar-nos: “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo”. (1 Cor 10 / 2ª L.).
Tu, Senhor, que és o nosso refúgio,
dá-nos a alegria da Tua Salvação,
alegria e felicidade de quem foi perdoado,
o gozo de quem foi defendido dos perigos…
Eu quero ser, ó Pai, do número dos Teus fiéis,
em cujo espírito não entra o engano,
porque apostam na pureza genuína
e evitam o contágio das “purezas (i)legais”…
Quero ser do grupo da gente sincera,
que não escondem a sua culpa, ó Deus,
mas confessam, na verdade, o seu pecado,
e sentem logo o Teu perdão paternal.
Que eu saiba, Senhor, estar próximo
daqueles que sofrem doenças corporais
enquanto são puros e limpos de alma…
Mas ilumina, Senhor, todos os que vivem
– envolvidos por disfarces de aparências –
a pensar que são do partido “dos puros”…
«Que, à nossa volta, só haja hinos de vitória,
pois são os justos que vivem alegres no Senhor,
e só exultam de alegria os retos de coração!».
[ do Salmo Responsorial / 31 (32) ]
6 Fevereiro, 2015
«É “MILÍCIA” A VIDA DO HOMEM…»
6 Fevereiro, 2015
«É MILÍCIA A VIDA DO HOMEM…»
«É MILÍCIA A VIDA DO HOMEM…»
Sim, desta vez, vamos utilizar uma linguagem bélica. E falamos numa “milícia” que não é a das armas convencionais nem a das outras sofisticadas, com as quais os homens (“militares” ou não) fazem (fazemos) continuamente as guerras… Parece como que estivéssemos empenhados, através de toda a história humana, em “aniquilarmo-nos”, uns aos outros, fazendo troça (e triste realidade) daquele aviso de Jesus: “Quem usa espada, à espada morrerá” (Mt 26, 52). Ou, por outras palavras, talvez mais conhecidas, «violência gera violência» até originar isso que chamamos “a espiral da violência”, que já é tão difícil de parar!… Aliás, nisto das violências nas guerras, temos chegado, nos tempos que correm, a aberrações bélicas tão tristes e lamentáveis como o recrutamento de crianças para pegar em armas (“mercenários infantis para a guerra”), ou para as transformar em “pequenas bombas humanas” nessas estúpidas imolações terroristas… Meu Deus, quem será capaz de parar esta “espiral”?…
Mas a outra “milícia”, essa de que fala a Palavra de hoje no Livro de Job, é de distinto género; a violência que aqui subjaz está numa outra dimensão; aponta na direção e sentido daquela afirmação inesperada (desconcertante?) de Jesus: “O Reino do Céu é objeto de violência, e os violentos apoderam-se dele à força” (Mt, 11, 12). Ou então, aquela outra – tão perturbadora, porque é Jesus a falar em primeira pessoa –: “Não penseis que eu vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt 10, 34). Não se trata, portanto, da “violência material bruta”, mas da violência do espírito, aquela que, desde o nosso íntimo, fazemos a nós próprios – livre e voluntariamente! – para “dominar” os nossos baixos instintos e/ou nefastas tendências…
Pois é nesta dimensão, e não noutro sentido, que a “personagem” de Job – no meio dos trabalhos e sofrimentos de uma já longa vida – chega a esta “conclusão” em jeito de questão e desabafo: “Job tomou a palavra, dizendo: «Não vive o homem sobre a terra como um soldado? Não são os seus dias como os de um mercenário?”…(Jb 7 / 1ª L.). Trata-se, então, dessa afirmação que interpela: «É “MILÍCIA” A VIDA DO HOMEM SOBRE A TERRA». Nem falar, portanto, aquela «paz dos cemitérios», que Jesus não veio trazer. Não é aquela paz que deixa de fazer a guerra interior (evangélica) essa que, ao vencer o nosso egoísmo, nos transforma e cria fraternidade. Porque esta outra falsa paz – à que aderem muitos, infelizmente – só pode trazer e traz guerras fratricidas, que apenas e só alargam e multiplicam – isso mesmo – «os cemitérios» e a sua paz mortiça… Estes, sim, são os que acabam por fazer suas as palavras do poeta: «Somente acredito na paz dos sepulcros»!
Apostar, porém, na “milícia” de Deus, significa estarmos comprometidos na luta diária para conseguirmos vencer todos os “espíritos do mal”, verdadeiros e únicos inimigos da nossa vida e salvação. Ou seja, ficarmos alistados e incorporados no “exército” de Cristo Jesus, o único “capitão” capaz de vencer todos os «espíritos malignos»: “Jesus… expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era… E andava por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios”. (Mc 1 / 3ª L.).
“Lutar nas hostes” de Deus quer dizer, portanto, combater – no “bom combate” que diria S. Paulo – sobretudo contra aquelas nossas baixas paixões e más inclinações… mesmo que, por vezes, seja preciso perdermos alguma “batalha”, mas tendo sempre a certeza de que ganhamos a “guerra”!
Participar nas “batalhas” do Deus dos Exércitos – ao invés do que se entendia no AT – significa arriscarmos em “sair do nosso egocentrismo” para trabalharmos, de preferência, na salvação dos outros. Exatamente como fazia Paulo, quem desde há tanto tempo, já nos convidava a seguirmos o seu exemplo: “Livre como sou em relação a todos, de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível… Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho…” (1 Cor 9 / 2ª L.).
Senhor, a Ti elevamos o nosso louvor
porque é bom cantar as Tuas fortalezas,
as Tuas grandes pequenezes, ó Pai,
a Tua omnipotência de ternura:
é agradável e justo celebrar a Tua Glória
– Deus pequeno, Deus imenso – …
Também nós, nas nossas lutas diárias,
não confiamos no vigor do cavalo
nem na força dos outros guerreiros…
mas confiamos na força do Teu Espírito,
na energia interior que dá vigor à alma,
para vencermos os inimigos da nossa salvação…
Sabemos que Te são agradáveis
os que confiam no Teu Amor, Senhor,
que preferes os humildes do povo
e estás sempre com os pobres
para os confortar e enriquecer…
Nós queremos ser congregados por Ti,
sempre que nos acharmos dispersos
pelo fragor das batalhas de cada dia…
Que, então, os Teus dedos de Pai bondoso
liguem as feridas de cada batalha
e sarem os corações dilacerados…
[ do Salmo Responsorial / 146 (147) ]





![«A ‘PAIXÃO DO JUSTO’» [Sl 22 (21)] … «A ‘PAIXÃO DO JUSTO’» [Sl 22 (21)] …](https://palavradeamorpalavra.sallep.net/wp-content/uploads/2026/03/20.a.A-‘PAIXAO-DO-JUSTO-Sl-22-21.--1024x717-50x50.jpg)




6 Março, 2015
ATÉ À «MILÉSIMA GERAÇÃO»…
Luis López A Palavra REFLETIDA 0 Comments
11-B.Domingo.3.Quaresma
ATÉ À «MILÉSIMA GERAÇÃO»…
A Divindade – ou seja, Deus nosso Pai – tem Todos os Atributos próprios do que nós, humanos, entendemos como Deidade ou “Ser Divino”. Isto é, qualquer ser inteligente compreende que DEUS será, necessariamente: Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente…; Bondoso, Misericordioso, Piedoso, Paciente…; Admirável, Maravilhoso, Sábio, Prudente…; e também, o centro: da Beleza, da Harmonia, do Encanto, da Sedução…; Etc., etc., etc. Estamos todos de acordo em que tudo aquilo que nos parece o Melhor e o Superior, terá de ser Qualidade (Atributo) de Deus.
Há, no entanto, certos traços ou caraterísticas que já não parece normal “atribuí-los” a Deus. Quando dizemos, por exemplo, “Deus pequeno” – lembram-se? – ou: Deus frágil, Deus inferior, Deus humilde, Deus servidor… Pois, mesmo que o não pareça, são também Atributos do nosso Deus, o Deus de Jesus.
Sendo isto assim, já não ficamos “admirados” – ainda que nos possa parecer mais estranho – que o mesmo Deus, nosso Deus, o Deus de Jesus, nos surpreenda também, de vez em quando, com atributos como: Deus Desconcertante, Deus Inesperado, Deus Perturbador, Deus Imprevisível… Deus…
Vejamos. Diz a Palavra de hoje: “Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus cioso: castigo a ofensa dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem; mas uso de misericórdia até à milésima geração para com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos…” (Ex 20 / 1ª L.). Este texto bíblico, de um livro tão antigo como o Êxodo, é, quando menos, um texto estranho, e, se pensamos melhor, um texto “confuso”… Desde logo, temos de concluir que se trata da Palavra de um Deus desconcertante! O que é que significa – se não for assim – “castigar as ofensas dos pais nos filhos” e, ainda, “punir até à quarta geração… enquanto perdoa até à milésima geração”?
Sabemos, em primeiro lugar, que a linguagem antropológica daquela época atribuía a Deus os estados de ânimo dos humanos (“Deus cioso… que castiga…” ou que «os filhos pagam as favas dos pais»!). Sabemos igualmente, que, a imagem do Pai Deus transmitida por Jesus, o Filho, é a de um Deus bondoso, que “não pode” castigar; que só sabe perdoar sempre… Mesmo assim, ainda fica sem explicação aquilo da “quarta… e da milésima geração”, que, pensando bem, continua a ser confusa e contraditória… porque, por uma lógica estatística elementar, quem perdoa até a milésima geração, muito dificilmente – para não dizer impossível – vai ser capaz de castigar, já que “as mil gerações de perdão” vão se sobrepor umas às outras… de tal modo que “as gerações de castigo” nunca vão poder aparecer… Em fim, todo este raciocínio de simples lógica, foi apenas para cairmos na conta do que significa «o nosso Deus ser desconcertante». E para tirarmos agora esta conclusão: quando Deus, nosso Pai, nos desconcerta, ou nos perturba, é porque tenta transmitir-nos, com essa Sua atitude, uma grande verdade: neste caso, a de que a Sua infinita misericórdia/perdão é capaz de desfazer e diluir a marca de «deus castigador, deus terrível», por nós atribuída.
Ou seja, DEUS PERDOA sempre! Apenas com uma mínima condição: que queiramos ser perdoados (!?). Deus é mesmo assim!… Mas esta realidade, de um Deus Desconcertante – para o nosso bem e felicidade! – aparece ainda patente noutros Textos da Palavra de hoje. Por exemplo, nas palavras de Paulo aos cristãos de Corinto: “… Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”. (1 Cor 1 / 2ª L.). Ou então, na própria palavra e atitude de Jesus – “manso e humilde” – no Evangelho: “Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio»”… E quando lhe perguntam “«Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?»”, Ele responde com palavras enigmáticas e imprevisíveis: “«Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo, e tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu corpo…” (Jo 2 / 3ª L.). Não há dúvida de que Jesus, desde o seu Ser Divino, está a proceder, igualmente, como Deus desconcertante, provocador, enigmático… E ainda bem!
É verdade, Senhor nosso Pai,
que o Teu Filho Jesus, sendo Deus,
tem palavras de vida eterna…
E as Tuas atitudes, de Deus Transcendente,
tal como as do Teu Filho, homem-Deus,
– enigmáticas, provocadoras, desconcertantes… –
não nos assustam, ó Deus Imprevisível,
porque a Tua “lei” é perfeita e santa,
e as Tuas “ordens” firmes e puras,
para reconfortar as nossas almas…
Os Teus projetos para nós são claros,
iluminam os olhos e alegram o coração;
e aquilo que chamam «temor do Senhor»
não é, da nossa parte, o temor servil que mata,
mas um amor forte que teme falhar…
Porque o Teu Amor por nós, ó Pai,
é mais precioso que o ouro mais fino,
e a Tua Amizade, que nos envolve,
é mais doce que o mel dos favos…
É certo, ó Deus, que o Teu imenso Amor,
às vezes nos “desconcerta” e nos abala…
mas provoca em nós uma amizade reflexa,
essa amizade fiel que transforma por dentro.
[ do Salmo Responsorial / 18 (19) ]