A Palavra REFLETIDA
Reflexão da Palavra de cada Domingo
29 Janeiro, 2015
«SE HOJE ESCUTARDES… NÃO FECHEIS…»
29 Janeiro, 2015
«SE HOJE ESCUTARDES… NÃO FECHEIS…»
«SE HOJE ESCUTARDES… NÃO FECHEIS…»
Já sabemos – lembram-se? – que, desde muito antigo, «o Senhor Deus gosta, prefere… diríamos que “é o seu estilo”, comunicar-Se com os homens através de outros homens»… E na Palavra de hoje, vamos ter ocasião de refletirmos, até nos convencermos, acerca da importância de aprendermos a descobrir onde, e através de quem, nos está a falar «a voz do Senhor», para assumi-la e transmiti-la…
Primeiro, é Moisés que fala ao Povo: “«O Senhor, teu Deus, fará surgir no meio de ti, de entre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deveis escutar»”… E não esqueçamos que Moisés é o primeiro e o mais antigo profeta (de todos os tempos)!… Pois já naquela altura, Deus deixou bem assente que… um outro “homem” – o verdadeiro Profeta do futuro – é que ia «falar a Sua Palavra». “O Senhor disse-me: Farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu. Porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas…” (Dt 18 / 1ª L.). Claro que “esse profeta”, que há de “surgir de entre os irmãos”, é o Messias, Jesus de Nazaré, o único e autêntico Profeta. Mas não só. Pois sabemos que, por extensão, todos os “irmãos” (e discípulos) deste Profeta, ao longo de todos os tempos, vão falar também em Seu Nome. E, portanto, se ouvindo-os, não forem “escutados”, é “o próprio Deus que há de pedir contas” a quem fechou os ouvidos e/ou o coração!
Mas pode surgir esta “pergunta”: Porque é que Deus não quer fazer ouvir a Sua voz diretamente, em vez de o fazer por “mediadores” humanos?… Ainda nesta primeira leitura (do Deuteronómio) encontramos o motivo e fundamento. O próprio Moisés reconhece que foi o povo, reunido em assembleia, que decidiu pedir ao Senhor que lhes falasse através de “intermediários”, porque – pensavam eles – “se ouviam a voz do Senhor Deus… iam morrer”. Por isso, o próprio Senhor seu Deus, disse a Moisés: “Eles têm razão… e assim, farei surgir, para eles, alguém em que porei as minhas palavras… para falar em Meu nome…” (Dt 18).
Vejamos, então, o que diz o Evangelho de hoje acerca daquele primeiro “mediador” da Voz de Deus, o Profeta Jesus – Ele próprio “o Verbo”, “a Palavra” – homem perfeito sem deixar de ser Deus. O autor inspirado (neste caso o evangelista Marcos) antes de descrever a atividade de Jesus de Nazaré, começa por afirmar: “Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina…”. E a seguir acrescenta-se a razão desta “fascinação”: “Porque os ensinava com autoridade e não como os escribas”… (Mc 1 / 3ª L.). Certamente, toda aquela gente sentia, no seu íntimo, que este “homem” («o filho do homem») falava em nome de Outrem, mas ao mesmo tempo com essa “veracidade” (“autoridade”) que refletia a sua pessoa humana, e que eles não eram capazes de explicar…
E agora, o que é que nos diz a Palavra a nós, que nos situamos, desde Jesus de Nazaré, na sequência desses “mediadores da Voz”, como cristãos que somos? O que é que podemos refletir, deduzir e concluir, como “discípulos”, responsáveis pela transmissão fiel da Palavra de Deus?…
Porém, uma coisa é certa – na convicção de S. Paulo –: Todos, “sejam eles casados, solteiros, virgens…” todos têm (temos) os seus (nossos) votos ou compromissos para cumprir, segundo a nossa vocação e estado de vida… [2ª Leit.(1 Cor 7)]. É a “urgência” da Palavra!
Pois se pretendemos que Deus fale pela nossa boca, ou que a nossa voz seja o reflexo fiel da voz de Deus, deveremos aprender de todos aqueles profetas – e de estes de hoje! – que falaram e falam em nome de Deus, e tentar imitá-los. Em primeiro lugar, em como se deve escutar… para, a seguir, saber como se deve falar. Pois, “falsos profetas” sempre houve e sempre haverá… como também houve e haverá os que sabem escutar e viver a Palavra (a voz de Deus)… e, pelo contrário, os que “ao ouvirem a voz do Senhor, são capazes de fechar os seus corações…”, como nos avisa o Salmo Responsorial da 1ª leitura, [ Sl 94 (95) ].
Por isso nós, discípulos de Jesus,
sentimos no íntimo da nossa vida,
a urgência de transmitirmos fielmente
a Tua voz, ó Pai, que nos interpela…
Queremos ter abertos sempre
os ouvidos do corpo e da alma,
para escutarmos a Tua Palavra,
e nunca fecharmos os nossos corações
como outros, infelizmente, fazem;
ou como aqueles outros de Meriba
ou aqueles do dia de Massa no deserto;
ou como fecham os ouvidos e o espírito
tantos outros que, lamentavelmente,
pretendem ignorar a voz da Tua Palavra,
apesar de estar a ver, por toda a parte,
as maravilhas da Tua Criação…
Quem dera, Senhor nosso Deus,
que todos ouvissem a Tua voz,
para chegarmos a ser o Teu povo,
as ovelhas do Teu rebanho!
[ do Salmo Responsorial / 94 (95) ]
23 Janeiro, 2015
CONVERTIDOS… E «CHAMADOS» …
23 Janeiro, 2015
CONVERTIDOS… E «CHAMADOS» …
CONVERTIDOS… E «CHAMADOS» …
Nunca devíamos esquecer, quando escutamos ou lemos as Sagradas Escrituras – a Palavra – que, por terem sido escritas por homens e para homens, não podem deixar de utilizar, ainda que referida a Deus, uma linguagem antropológica…
A primeira leitura (constituída apenas por um fragmento do extenso relato do profeta Jonas) – para além de ser no seu todo um exemplo maravilhoso de narração curiosa e divertida, à mistura com sábia ironia e fina psicologia – é um claro exemplo do uso destas “linguagens antropológicas”… Fiquemos agora apenas com o texto que nos interessa, aliás, texto conclusivo da leitura: “…Quando Deus viu as obras daquela gente e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou”. (Jn 3 / 1ª L.). O que importa neste caso, quer para o autor, que escreve inspirado por Deus, quer para nós, que agora o lemos ou escutamos, oxalá também inspirados por Deus… o que nos importa, digo, é observar a conversão exemplar, radical e firme deste povo de Nínive e admirar, tanto ou mais, o imediato e generoso perdão de Deus, cuja infinita misericórdia estará sempre por cima da justiça humana e divina. Mas não deixemos de prestar atenção a essa linguagem antropológica que aplicamos (escritor e leitores) a Deus… quem, como tal, “nem consegue ameaçar… nem pode desistir”; isto sim que fazemos os humanos, real e verdadeiramente. Por isso, mais uma vez, saibamos ler e interpretar a Palavra de Deus, ultrapassando sempre a literalidade e superando a estrita linguagem humana (antropológica) para descobrir o verdadeiro sentido da «Escritura Sagrada» para nós e para todos, em cada etapa da nossa vida e em cada passo da nossa existência…
Então, começando nós por realizarmos essa conversão de que nos dão claro exemplo os ninivitas, e confiados cegamente na misericórdia de Deus que estará sempre connosco, continuemos o nosso caminho “vocacional” – lembram-se? – seguindo o modelo daqueles primeiros discípulos de Jesus; sim, as tais “vocações em cadeia” que agora continuam neste evangelho de hoje. E embora os irmãos, André e Simão (Pedro), já tinham tido um prévio chamamento, vemos que, no episódio de hoje, são chamados já “definitivamente”, junto com outros dois irmãos, João e Tiago, este aparecendo pela primeira vez, certamente “arrastado” (cá está a “cadeia”) pelo seu irmão João, que já tinha estado com Jesus pelo menos aquela tarde de “feliz memória”… E, por falar em irmãos, é curioso constatar – em palavras de um autor, amigo nosso, nestes mesmos dias – que esses primeiros discípulos são chamados como sendo irmãos, porque «Está à vista: o Reino de Deus é coisa de irmãos!…».
E já sabemos – creio eu – que «toda a opção exige uma renúncia»; ou seja, para optar por alguma coisa, pelo menos em assuntos de “capital importância”, há que renunciar a outras, pelo simples facto de serem incompatíveis! Desde logo, descobrir e seguir fielmente a própria “vocação” é uma opção fundamental. E como facilmente se observa nestes primeiros discípulos (depois apóstolos), eles hão de “renunciar” a coisas (os seus bens/“as redes…”) e “renunciar” a pessoas (a sua família/“seu pai…”). “Eles (Simão e André) deixaram logo as redes e seguiram Jesus… Por seu lado, Tiago e João “deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus”. (Mc 1 / 3ª L.). Todos eles, portanto, tiveram de “cortar laços” velhos para “criar laços” novos… É que os laços que cria este mundo são “passageiros”… porque o tempo de duração das coisas visíveis é finito e “breve”… É exatamente o aviso perentório e decisivo que nos deixa, por seu lado, S. Paulo: “O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo é breve… De facto, o cenário deste mundo é passageiro”. (1 Cor 7 / 2ª L.).
E é curioso que – falando em Paulo – também ele, para afiançar a “sua conversão”, entrou “na corrente” destas vocações “em cadeia”. Ele próprio descreve-o na sua Carta aos Gálatas, onde diz “que subiu a Jerusalém, ter com os que eram naquela altura ‘as colunas’ da Igreja”… para certificar (!) a sua vocação e missão. Sabemos que, entre estas “colunas” estavam Pedro, João e Tiago… (Gl 1, 18 e 2, 9). Quer isto dizer que aquela “cadeia vocacional” teve continuidade no «apóstolo das gentes», Paulo (antes Saulo)… e, assim, em todos os outros discípulos… entre os quais devemos estar nós todos…
Mostra-me, Senhor, os Teus caminhos,
ensina-me as Tuas veredas,
para que eu encontre a Tua verdade:
essa verdade que é o Teu sonho, de Pai,
o plano de amor que Tu tens sobre mim…
Que eu saiba escutar o Teu “apelo”,
a “vocação pessoal” que me diriges, ó Deus,
para a minha realização e felicidade plena…
Confiado na Tua infinita misericórdia,
– e porque ensinas aos pecadores o caminho –
quero mudar o que está errado na minha vida,
esses passos que se desviam do Teu Amor,
e assim iniciar uma conversão radical e profunda…
Então, Senhor, seguirei com humildade a vocação,
aquele Teu plano de amor para mim,
porque Tu orientas sempre os humildes na justiça,
por causa da Tua bondade e fidelidade
e porque as Tuas graças e dons são eternos!
[ do Salmo Responsorial / 24 (25) ]
15 Janeiro, 2015
VOCAÇÕES… «EM CADEIA»
VOCAÇÕES… «EM CADEIA»
Pode parecer normal confundir, por vezes, a voz de uma pessoa com a de outra. Porém, confundir uma voz humana com a voz de Deus, ou vice-versa, isso já não se afigura tão “normal”. A Palavra de hoje, certamente, quer dar-nos uma lição a partir dessa “confusão de vozes” (que não de línguas!). Mas para isso, é necessário, da nossa parte, tentarmos interpretar o relato do menino Samuel, que nos aparece na primeira Leitura. Esta criança (podemos imaginar, dos seus 8-10 anos?) morava numa das habitações do Templo de Jerusalém, onde se preparava para “uma missão futura”(!) sob a tutela do Sacerdote Heli. Durante a noite, enquanto o menino dormia, “o Senhor chamou Samuel, e ele respondeu: «Aqui estou». E, correndo para junto de Heli, disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Mas Heli respondeu: «Eu não te chamei; torna a deitar-te»…”. É interessante observar que o próprio relato – após a segunda vez que “aquela voz” se deixa ouvir – tenta explicar ou justificar essa “confusão de vozes” com uma afirmação, ainda mais enigmática: “Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor”. (1 Sm 3 / 1ª L.).
Desde logo, ao ouvir aquela voz, o rapazinho fica convencido de estar a escutar a voz do seu tutor e guia, o sacerdote Heli. E agora nós, poderíamos perguntar-nos: Se na verdade, era Deus que queria comunicar com o Samuel, porque é que Ele não escolheu um tom de voz diferente de todos os outros tons que o menino conhecia? O que é que Deus pretendia dizer-nos, a todos, ao escolher precisamente o timbre de voz da pessoa que acompanhava e orientava aquela criança? Qualquer um de nós pode dar uma primeira resposta válida ou satisfatória. Por exemplo: é compreensível que Deus quisesse dar uma certa “autoridade moral” àquela pessoa que é responsável e que dirige os destinos de outra… É possível. No entanto, se damos um passo mais e refletimos melhor, podemos intuir uma outra resposta mais geral e concluinte: o Senhor Deus gosta, prefere… diríamos que “é o seu estilo”, comunicar-Se com os homens através de outros homens, e nunca “diretamente”(?) embora pudesse fazê-lo!
Bom, mas para prosseguirmos a nossa reflexão da Palavra de hoje, na linha das respostas à «vocação de Deus para cada um de nós», concluamos este relato profético com a resposta exemplar do rapazito (futuro profeta Samuel) àquela voz de Deus que o chamava (!?): “«Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». E Samuel foi crescendo; e o Senhor estava com ele, e nenhuma das suas palavras deixou de cumprir-se” (1 Sm 3).
No Evangelho de hoje, como era de esperar, encontramos igualmente exemplos perfeitos de fidelidade ao seguimento da vocação. E o relato é precisamente da autoria de um dos protagonistas (o evangelista João); trata-se dos primeiros discípulos em seguir Jesus e a Sua Palavra. Descobrir e seguir a própria vocação – ou numa outra linguagem, “seguir a própria estrela” – não é simplesmente responder e caminhar ao sabor do vento… de gostos ou fantasias… de oportunidades ou ilusões… Mas é realmente saber escutar essa voz interior, que tem o tom e timbre das conhecidas como “causas segundas” (bem evidente no caso do Samuel); e é confiar sinceramente numa Pessoa que não pode falhar, deixando-se levar por um Amor que envolve, arrasta e transforma (tal como aconteceu àqueles primeiros seguidores de Jesus de Nazaré). Neste caso será João Batista (como antes fora o sacerdote Heli) o instrumento, “a voz”, a “causa segunda”, que Deus vai utilizar para comunicar – por caminhos diversos – a Sua “vocação de Amor” a cada homem e mulher… “Quando João Batista… vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus»… então, dois dos seus discípulos, ao ouvirem aquelas palavras, seguiram Jesus… e ao perguntar-Lhe: «Mestre, onde moras?», Ele responde: «Vinde Ver!»”. (Jo 1 / 3ª L.). E tanto lhe ficou gravada, a um deles (João), essa “vocação”, que até se lembra – a muitos anos de distância – da hora do dia em que aconteceu, e deixa-o assim registado: “Era por volta das quatro horas da tarde”… Mas, vejamos como o processo das “causas segundas em cadeia” continua; porque, logo a seguir, vai ser o colega de João – André – quem vai transmiti-lo imediatamente ao seu irmão Simão: “«Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’-; e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’ ”. (Jo 1)… Maravilhosos episódios vocacionais e admiráveis exemplos de rapidez e de fidelidade no seguimento da vocação!
“Admiráveis”, sim, mas também “imitáveis”! Mas isto já depende de nós!
Nós viemos à vida, Senhor e Pai nosso,
apenas e só, pelo Teu infinito Amor…
Nós estamos neste mundo que passa,
para fazer a Tua Vontade, ó Deus!…
Por isso, cada um de nós deve clamar dia e noite:
«Aqui estou!». Cumpra-se em mim a Tua Palavra!.
Abriste-me os ouvidos para escutar a Tua “voz”
porque os sacrifícios e oblações não Te agradavam…
Então, Senhor, eu descobri esta verdade:
«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a Tua vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a Tua lei está no meu coração».
Eu confio em Ti, Senhor, e prometo
proclamar a Tua justiça e santidade,
pela minha vida e pela minha palavra:
Diante de todos os povos, Senhor,
anunciarei a Tua bondade e fidelidade!…
[ do Salmo Responsorial / 39 (40) ]
6 Janeiro, 2015
TENHO EU A “MINHA ESTRELA”?
6 Janeiro, 2015
TENHO EU A “MINHA ESTRELA”?
TENHO EU A “MINHA ESTRELA”?
Todas as “fantasias”, tal como as “histórias de ciência-ficção”, fábulas, parábolas, contos… têm – pelo menos! – um fundamento real (histórico). Existe sempre uma base ou alicerce verídico sobre o qual é construída – ou reconstruída – cada lenda, conto, narrativa ou fabulação. Aliás, estou convencido de que toda e cada “lenda” ou “ficção” é fruto e resultado de várias ou muitas realidades históricas, acontecidas em lugares e tempos diferentes, e sobrepostas sucessivamente… (segundo aquela filosofia popular de: «quem conta um conto acrescenta um ponto»).
Sabem aquela de «O quarto rei mago»?… O tal que se afastou dos outros “três colegas” para ajudar em toda e qualquer necessidade que foi encontrando pelo caminho?… E que, por este motivo, chegou a Jerusalém “trinta anos mais tarde”(!), quando Jesus acabava de morrer na cruz e já estava sepultado?… E sabem que, quando ele voltava triste e desiludido para a sua terra, o próprio Jesus – já Ressuscitado e Glorioso – lhe apareceu no caminho para lhe revelar a Verdade da sua Recompensa?… As palavras que o “quarto rei mago” escutou de Jesus – diz a “lenda” – foram estas, pouco mais ou menos: «Não estejas triste, meu caro amigo, por não teres podido contemplar e adorar o Menino Jesus!… Tu já o tinhas visto muitas vezes, nos rostos de tantas pessoas pobres e necessitadas que ajudaste em todos estes anos… Tu já Me tinhas visto tantas vezes! Não Me reconheces?… Pois em verdade, em verdade te digo: “Muito em breve estarás comigo no Paraíso”!».
E agora, continuamos com as perguntas: Será que não houve, no tempo histórico, muitas pessoas que, por ajudar os seus semelhantes, perderam os seus bens, o seu tempo, as suas oportunidades, os seus interesses imediatos?… Ou será que não existiram muitíssimas pessoas que foram capazes de seguir “a sua estrela”, na inspiração interior, até encontrar a meta dos seus sonhos, a sua realização pessoal?… Então teremos nós de concluir que a “história dos três reis magos” – para além de ter tido diversos fundamentos históricos e algumas “profecias” na Antiga Aliança – não deixa de estar bem pensada e construída. («Se não é verdadeira, vem mesmo a calhar!», diz uma máxima da sabedoria popular). Isaías tinha-o “profetizado”(?) vários séculos antes: “…Pois a ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações. Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá. Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando as glórias do Senhor” (Is 60 / 1ª L.). Ponhamos agora todos os presumíveis “acontecimentos reais” a que aludíamos anteriormente, e teremos uma história que, pelo facto de ser considerada globalmente como fantasia ou ficção, isso não quer dizer que careça de qualquer valor histórico e, menos ainda, de valor moral, espiritual ou teológico… Todo o contrário!
Mas a Palavra da Liturgia de hoje é ainda muito mais rica que todos esses “tesouros e riquezas das nações” que traziam os “reis magos”… Já o próprio nome da festividade Litúrgica – «EPIFANIA» – quer transmitir o que “significa”. Esta criança que nasceu de modo tão simples e pobre vem demonstrar assim, que a Salvação, o Amor de Deus, é para todos e não terá nenhum tipo de barreiras ou fronteiras. Quem é que disse então que a salvação era apenas para o povo eleito dos hebreus?… “Os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho” (escreve Paulo aos fiéis de Éfeso / 2ª L).
Este Jesus Menino, Salvador-Infante, manifesta-se (epifania) igualmente aos “gentios”, estrangeiros, que vivem afastados e estão representados nesses “reis magos” do Nascente remoto. (“Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O” / 3ª L.- Mt 2). O Amor de Deus Pai, a Sua Salvação, vem para todos, desde que cada quem – no uso da sua liberdade – ponha da sua parte o que exige este “caminho de Salvação” em que nos movemos…
Deveremos, antes de mais, encontrar a “nossa estrela”. Procurá-la se ainda não a descobrimos! E a nossa estrela não é outra coisa que “o sonho de Deus para cada um de nós”; aquilo que também chamamos “vocação” e que nos faz profundamente felizes, ao sentirmo-nos realizados e satisfeitos. É que se vivemos “sem estrela”, andamos desorientados e por caminhos que levam a nenhuma parte… E o que é que diriam hoje os nossos “reis magos” a tanta gente que vive (mal vive!) tristemente, sem a alegria do rosto nem o sorriso nos olhos, e a mercê de todos os ventos… com essa angústia íntima de quem não vê claro qualquer futuro de Esperança Feliz? O que é que nos querem dizer hoje “os magos”? Como é que devemos imitar o seu exemplo para encontrarmos a “estrela” e segui-la apesar das dificuldades, dos silêncios e das noites?…
Temos ao nosso dispor, e para a nossa meditação, a Palavra do Evangelho de hoje (Mt 2), que – lida, refletida e orada nas calmas – pode iluminar-nos e transmitir a força de vontade que precisamos… neste nosso “caminho de Salvação”. Pois, mãos à obra!
E agora, Senhor, sentimo-nos solidários
com todos os que, neste mundo nosso,
continuam desorientados e tristes
apesar da “epifania” do Teu Filho Jesus,
Luz verdadeira que ilumina tudo e todos!
Graças ao Teu Amor, Deus e Pai nosso,
já não estamos sem esperança de salvação.
Apareceu entre nós o Teu Filho,
que – na sua “manifestação” universal –
traz a paz, a justiça e o perdão…
para todos: pequenos e grandes,
os de perto e os de longe,
amigos e inimigos, maus e os bons,
pobres e ricos, justos e pecadores…
para o pobre e fraco que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Obrigado, Pai, Abbá, pelo Filho que nos dás;
porque a sua Estrela aponta já
o nosso presente e futuro de Felicidade.
Floresce já a justiça nos nossos dias
e a paz profunda e verdadeira
em todos os corações simples…
Queremos dar-Te infinitas graças, Senhor,
pelos “tesouros que hoje nos ofereces”
na Pessoa do Teu Amado Filho, Jesus.
E aceita o nosso melhor “Presente”,
que é também Jesus-Menino,
adorado pelos Magos no colo de Maria…
[ do Salmo Responsorial / 71 (72) ]





![«A ‘PAIXÃO DO JUSTO’» [Sl 22 (21)] … «A ‘PAIXÃO DO JUSTO’» [Sl 22 (21)] …](https://palavradeamorpalavra.sallep.net/wp-content/uploads/2026/03/20.a.A-‘PAIXAO-DO-JUSTO-Sl-22-21.--1024x717-50x50.jpg)




1 Fevereiro, 2015
LUZ PARA AS NAÇÕES…
Luis López A Palavra REFLETIDA 0 Comments
LUZ PARA AS NAÇÕES…
“Imediatamente entrará no seu templo o Senhor a quem buscais, o Anjo da Aliança por quem suspirais… Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda, quem resistirá quando Ele aparecer? Ele é como o fogo do fundidor… Sentar-Se-á para fundir e purificar: purificará os filhos de Levi, como se purifica o ouro e a prata…” (Ml 3 / 1ª L.). Sim, outra vez palavras misteriosas, palavras que desconcertam; palavras onde se contrapõe «o Anjo da Aliança por quem suspiramos» com «o fogo de fundidor… para fundir e purificar». É que o Deus-Amor, capaz de – humildemente – entrar no seu templo prontamente, trazendo um recado amoroso de Salvação… este Senhor do Universo, é tudo menos um boneco com o que se pode brincar impunemente! Quem estiver disposto a receber a Salvação que Ele traz e oferece, tem de o fazer com todas as consequências. Porque há de saber que as suas próprias obras e até às suas intenções terão de ser fundidas e purificadas, como se purifica o ouro e a prata. Aqui não valem enganos, meias-tintas, aparências… numa palavra: a mentira aqui não tem nada a fazer! Ou apostas na Verdade, meu amigo, ou estás perdido! E só o trigo bom, o trigo da Verdade, é alimento e semente de Vida Eterna; o joio e a palha – frutos e lixos da mentira – serão pasto das chamas, naquele fogo escaldante, abrasador…
A Salvação, porém, essa que leva em si um peso de Eternidade, não era possível sem um Redentor adequado e eficaz. Era conveniente e necessário que o Libertador, sem deixar de ser o Filho de Deus, nascendo de entre os humanos, saísse do meio dos homens, do seio desse “povo a redimir”. É que nenhum ser, só humano, poderia salvar “os filhos dos homens”… Mas também não era “possível” – segundo os desígnios de Deus! – que Ele, só pela sua Divindade, realizasse a Salvação daqueles pobres desgraçados… “Porque Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão. Por isso devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos”… Sendo certo, portanto, que o Filho tinha tomado a mesma carne e o mesmo sangue, “participando da mesma natureza humana”, seria assim a pessoa idónea e designada “para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo”… Toda a gente percebe que só quem passou pelas mesmas misérias é que pode compreender os miseráveis. “Porque, de facto, se Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem provação”... Ficava então, e só deste modo, constituído o verdadeiro e eterno “sumo Sacerdote” – Mediador entre Deus e os homens –. “Semelhante em tudo aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus, e assim expiar os pecados do povo” (Hb 2 / 2ª L.).
Neste contexto, entendemos melhor o gesto que neste dia celebramos. Será este “o primeiro passo” dessa entrega total do Servo, homem entre os homens, “Filho do homem”, na sua Apresentação no templo; isto é, na sua «primeira Consagração ao Pai», submetido já às leis humanas. “Segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor»”. E é preciso realçar, desde este primeiro momento, a perfeita colaboração – “necessária e suficiente” – da Virgem Mãe, que antes oferecera a sua própria carne de mulher, e agora apresenta os seus braços maternais. Porque a história deve continuar, a história – lembram-se? – “daquele sonho feminino” de Deus! E neste episódio, ficamos todos a conhecer: Ela estava chamada, já desde as origens, a ser “Corredentora”, associada sempre ao Redentor. “Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações»”… (Lc 2 / 3ª L.).
Todo o mundo reconhece, Senhor,
que és o “Rei de todo o Universo”,
embora muitos não Te aceitam com amor
no acontecer das suas vidas…
Nós sabemos, Senhor, que és capaz,
apesar da tua imensa grandeza,
de Te fazeres pequeno e frágil
até caber nas estreitas dimensões
do sagrado ventre da mulher-mãe…
E, no entanto, devemos proclamar, ó Deus:
«Levantai, ó portas, os vossos umbrais,
alteai-vos, pórticos antigos,
para poder entrar o Rei da glória!».
Louvamos-Te, hoje, Jesus, “Luz das nações”,
ainda bebé nesses braços maternais!…
E com o carinho da Tua e nossa Mãe, Maria,
– nos seus braços puros e amorosos –
aprendamos a crescer com vigor
em sabedoria e em graça, como Tu,
na presença de Deus e diante dos homens…
[ do Salmo Responsorial / 23 (24) ]